20 agosto 2006

A impressionar


Em um verão que teve como destaque nos noticiários internacionais os desmanches dos envolvidos no Calciocaos, suas transferências não foram das mais notadas. Mas, após a 2ª rodada da Bundesliga, Diego e Hugo Almeida estão a causar sensação. A dupla vem iniciando a temporada de maneira brilhante, sendo os principais destaques individuais neste começo de campeonato.

O brasileiro, ex-FC Porto, foi o destaque do Bremen na conquista da Copa da Liga, sendo o principal jogador de uma equipa que conta com nomes do porte de Torsten Frings, Miroslav Klose e Ivan Klasnic. Após a saída do francês Johan Micoud, vendido ao Bordeaux, os responsáveis pelo emblema alemão buscaram no FC Porto o seu substituto, sendo necessário pagar algo em torno de 6 milhões de euros para levar Diego. Na chegada ao Weserstadion, o brasileiro de apenas 20 anos recebeu a camisa 10, usada por Micoud na última temporada. Diego teve um excelente desempenho na Copa da Liga e parece estar a manter o nível na Bundesliga, já que em dois jogos, contribuiu com um golo e três assistências para as duas vitórias do Bremen. Diego, grande destaque do Santos campeão brasileiro em 2002, vem desempenhando o papel de principal homem criativo da equipa armada por Thomas Schaaf. A sua frente, jogam dois dos atacantes mais possantes da Europa: Klose e Klasnic.

Depois de uma temporada bastante discreta ao serviço do FC Porto, Hugo Almeida parece que encontrou seu melhor futebol em Bremen. Na realidade, o avançado nunca teve muitas chances na equipa principal, especialmente no onze de Adriaanse, mas sempre atraiu interesse de grandes clubes europeus. Em 12 de julho, o clube alemão oficializou a contratação por empréstimo do avançado, com opção de compra que pode ser efetuada até 15 de janeiro. Almeida, que teve grande desempenho na fase qualificatória para o Europeu Sub-21, marcando 8 gols em 9 jogos, recebeu diversos elogios do novo comandante, Schaaf, que referiu-se ao português como um 'avançado em potência, muito forte de cabeça e de uma qualidade extraordinária para a idade.' Logo em sua estréia pelo Bremen, em um amigável frente ao TSV Ottersberg, Almeida marcou dois golos. Na partida de ontem, Almeida entrou ao segundo tempo, no lugar de Klasnic e não decepcionou, marcando seu segundo gol na Bundesliga. É certo que, se continuar a este nível, os comandantes do Bremen não pensarão duas vezes antes de efetuar a sua opção de compra. Com alguma sorte, em três ou quatro anos o camisa 23 do Bremen pode se desenvolver no avançado de classe mundial de que o seleccionado português tanto sente falta.

Além da 'dupla sensação' deste começo de temporada, o Bremen tem um plantel muito equilibrado, dirigentes com bastante sensibilidade no mercado de transferências e um bom treinador. Contam com um excelente onze inicial e várias alternativas no banco de suplentes, como Hugo Almeida. Penso que o Bremen é a única equipa da Alemanha capaz de bater o Bayern München atualmente. É o que veremos durante esta temporada da Bundesliga, que tem tudo para ser uma das melhores, com grandes equipas, ótimos jogadores e adeptos ainda contagiados pelo clima mundialista.

01 agosto 2006

Anos Dourados x Anos Organizados


Muitos vêem o futebol, da maneira que ele é jogado atualmente, como um jogo que pouco se assemelha ao belo jogo praticado há algumas décadas. Os saudosistas me dizem que 'naquela época', o jogo era bonito, vistoso, ofensivo, jorravam gols e grandes jogadores. E que hoje em dia, o futebol é feio, truncado, defensivista, excessivamente tático e que 'não se fazem mais craques como antigamente'.

Nos 'Anos Dourados' do esporte bretão, época compreendida entre as décadas de 30 e 70, dizem-me que os jogos eram verdadeiros espetáculos, que os gols eram obras de arte e os jogadores eram simplesmente fantásticos. Falam-me de Pelé, Garrincha, Friedenreich, Vavá, Didi, Eusébio, Fontaine, Puskas, Boyé, Di Stéfano, e outros tantos, como verdadeiros artistas da bola, homens de outro mundo, que faziam com o esférico coisas que iam contra a realidade. Ainda me falam que as partidas eram cheias de gols, grandes dribles, times ofensivos e assistências inimagináveis.

Não há dúvidas quanto à predominância do jogo ofensivo nessa época, já que grande parte das equipes nas décadas de 40 e 50, alinhavam em um 2-3-5. Sim, os times jogavam com cinco avançados. Algunas linhas ofensivas dessa época são lembradas até hoje, como a do Real Madrid pentacampeão europeu (Canário, Del Sol, Di Stéfano, Puskas e Gento) ou a do River Plate dos anos 40, conhecido como 'La Máquina' (Munõz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau- Foto). Em décadas seguintes, vimos o 4-2-4 e depois o 4-3-3 como táticas mais comuns. Nota-se, em todas elas, uma grande preocupação com o número de avançados, e obviamente, pouquíssima preocupação com o que iria acontecer na parte defensiva. Ainda observando essas formações, vimos que o número de médios era pequeno, já que o deslocamento dos jogadores era bem menor durante a partida e não possuíam múltiplas funções, como possuem hoje. Uma frase que resume bem o pensamento, quanto à movimentação dos jogadores nos 'Anos Dourados' é de Didi, o homem da 'folha seca'. Certa vez ele disse 'Quem tem que correr é a bola, não o jogador'. Nos dias de hoje, se falares isso à qualquer pessoa que entenda um pouquinho do desporto-rei, lhe dirá que é um absurdo. Mas, naquela época, era uma verdade absoluta.

Quanto ao aspecto técnico dos jogadores, penso que haviam muitos grandes jogadores, talvez a maioria deles atuou nesse período, mas havia um distanciamento técnico muito grande entre os grandes e os outros. Toda equipe tinha dois ou três jogadores que eram capazes de desequilibrar uma partida, enquanto os outros oito ou nove estavam anos-luz atrás, em termos de técnica. No que diz respeito a parte futebolística 'fora do relvado', como organização administrativa e preocupação com os adeptos, os clubes eram muitos mais administrados por apaixonados, e não profissionais capacitados. É uma época praticamente amadora, nesse aspecto. É certo que, nestes tempos de glória ofensiva, o futebol era muito mais romântico e folclórico. Grandes mitos futebolísticos, sejam eles jogadores, diretores ou adeptos, viveram nesse tempo que hoje nos parece tão distante.

No começo dos anos 80, foi possível começar a observar mudanças na mentalidade futebolística, especialmente no que diz respeito às tácticas. A parte defensiva começou a ser mais trabalhada e o 4-4-2 começou a reinar. Foi constatado que uma maior movimentação dos jogadores seria necessária para o sucesso, como provara alguns anos antes a Holanda e seu 'futebol total'. Ainda que não vejamos jogos repletos de gols e grandes jogadas, o espetáculo táctico de um jogo de futebol dos dias de hoje é tão bonito, ao meu ver, quanto as partidas memoráveis de outras eras. No Brasil, especificamente, criou-se o conceito de 'lateral' que se tem hoje em dia, originalmente um defensor, mas que também tem obrigações ofensivas de apoio pelos lados do campo. Também nos anos 80 foi praticamente extinta do futebol uma posição até então considerada essencial, a de 'ponta' ou 'extremo'. Aquele jogador rápido, habilidoso, com grande capacidade ofensiva, que marcava gols e que somente tinha que se preocupar em atacar. No lugar do extremo exclusivamente ofensivo, apareceu um extremo que também tinha que voltar até o seu campo, acompanhando o defesa lateral adversário e ajudando a 'fechar o meio-campo'.

Já no começo dos anos 90, o futebol atingiu seu auge defensivista. Prova disso é que o Mundial da Itália é o que possui menor média de gols entre todos os Mundiais. Mas essa década é, com toda a certeza, a que marca o surgimento do futebol como negócio, que passou a envolver cifras antes impensáveis. Os clubes passaram a ser geridos como empresas, o adepto passou a ser digno de respeito e preocupação por parte dos clubes e o futebol tornou-se um dos negócios mais lucrativos do mundo. Com as verbas cada vez maiores, as ligas européias se fortaleceram cada vez mais, concentrando os melhores jogadores do futebol mundial. Do ponto de vista técnico dos jogadores, penso que há uma maior igualdade. Ainda existem grandes jogadores, mas é cada vez mais importante um trabalho coletivo, um esforço de todos para obter o sucesso.

Ainda que me fascine imaginar como era o futebol sessenta ou cinqüenta anos atrás, me sinto extremamente privilegiado em poder viver o futebol atual. É fantástico estudar o trabalho dos estrategistas do futebol, detalhes tácticos minuciosos que decidem campeonatos, observar como se porta tacticamente uma equipa em diversas situações. Talvez tenhamos perdido um pouco da técnica e do brilho individual com o passar do tempo, mas ganhamos muito em termos coletivos. Penso que os craques do passado eram mais craques que os de hoje, e que os mau jogadores do passado eram piores do que os maus jogadores atuais. Há uma maior uniformidade técnica e uma preparação físico-psicológica infinitamente melhor, em relação aos 'Anos Dourados' do futebol. Entre as décadas de 40 e 70, os jogos eram decididos em um drible acertado, que gerava um chute certeiro e a vitória naquele dia. Hoje em dia, são decididos num drible falhado, que gera um contra-ataque e uma consequente derrota.