09 julho 2006

Tu mereces, Cannavaro


Não foi um grande jogo do ponto de vista técnico, e isso é fato. Porém, ao olharmos o aspecto tático da partida, vemos muita inteligência estratégica em ambas as equipes. Tanto Domenech quanto Lippi alinharam suas equipes em um 4-5-1, com algumas diferenças notáveis.

França
Pirlo, o alvo

Ao traçar sua estratégia de marcação, Domenech baseou toda sua armação defensiva em cima da marcação de um jogador italiano: Andrea Pirlo. Durante todo o Mundial, o camisa 21 esteve a provar que era um fator preponderante para o sucesso da Squadra Azzurra e o técnico francês viu que, para dificultar a vida de Pirlo, seu time teria de pressioná-lo. Ao vir buscar a bola dos defesas, Pirlo se encontrava em uma situação difícil, pois sempre tinha Zidane ou Henry lhe pressionando e diminuindo seus espaços. Com isso, tinha de soltar a bola rapidamente para as laterais, outro ponto forte italiano. Porém, Domenech também tratou de exercer uma marcação dura sobre Grosso e Zambrotta, e assim a saída de bola italiana ficou muito prejudicada. Ao anular o jogo ofensivo italiano, a França também abdicou um pouco de seu jogo ofensivo. Malouda e Ribéry não tinham tanta liberdade, pois tinham que cumprir seu papel na marcação aos defesas laterais e Zidane tinha que voltar até o círculo central, para recompor o meio-campo francês. Porém, à metade do primeiro tempo, os franceses relaxaram mais na marcação e liberaram mais Malouda e Ribéry.

Malouda, a válvula de escape

Com forte marcação italiana em cima de Zidane, o time francês foi obrigado a jogar mais pelo flancos, com os velozes Malouda e Ribéry. Esses dois, que foram as principais figuras do primeiro tempo, levaram algum perigo à baliza defendida por Buffon e imprimiram muita movimentação no ataque francês. Foi em uma dessas subidas de Malouda pela esquerda aos 6 minutos, numa falha de posicionamento de Cannavaro (talvez a única deste Mundial), que o camisa 7 francês foi derrubado na área por Materazzi e sofreu pênalti. Zidane converteu e colocou os franceses em vantagem. Após sofrer o gol de empate, os franceses foram mais ao ataque, sempre jogando pelos lados do campo, se aproveitando da falha da marcação italiana, que se concentrava na área central do campo.

Henry, a figura do segundo tempo

Ao ver os italianos abdicando do jogo ofensivo no início da segunda etapa, Domenech mandou sua equipa à frente. E assim fizeram, com grande participação de Henry. O jogador do Arsenal se movimentou bastante, criando opções de ataque e combinando bem com Zidane, Malouda e Ribéry. Talvez com um pouco mais de organização a França tivesse chegado ao gol de desempate, mas com grande atuação de Materazzi e Cannavaro, sempre paravam na defensiva italiana. A chance mais clara foi a cabeçada de Zidane, bem defendida por Buffon. Hoje Henry não esteve tão isolado quanto em outros jogos e seu desempenho foi bem melhor, ainda que tenha pecado em algumas finalizações.

O erro de Domenech

Ao fim do segundo tempo a França tinha o total domínio da partida. Com uma boa movimentação de ataque e variação de jogadas, o gol seria uma questão de tempo. Porém, um erro de Domenech colocou tudo em risco. Após 100 minutos de muita correria, Scarface Ribéry estava exausto e teve que ser substituído. Ao invés de colocar Govou ou Wiltord e manter sua estratégia de rapidez no ataque, sem um homem fixo na área, Domenech colocou Trezeguet. Malouda veio ocupar o lugar de Ribéry na extrema direita, Henry tomou o lugar de Malouda na esquerda e Trezeguet entrou como ponta de lança. O camisa 20 não fez absolutamente nada nos 20 minutos que esteve em campo e por azar, ainda perdeu um pênalti. Logo depois, aos 2 minutos do segundo tempo do prolongamento, o técnico francês foi obrigado a tirar Henry, que não aguentava mais andar. Colocou Wiltord, que ocupou seu lugar no flanco esquerdo. O certo teria sido trocar Ribéry por Wiltord aos 100' e Trezeguet por Henry aos 107'. A diferença consiste justamente no intervalo de tempo. Esses 7 minutos foram decisivos e, se jogados com a mesma estratégia ofensiva do segundo tempo, o gol francês certamente teria saído.



Itália

In Cannavaro we trust


Assim como Domenech, Lippi baseou sua estratégia defensiva em um jogador: Zidane. Ao contrário da França, a marcação italiana era quase inexistente no seu campo de ataque, mas a partir do momento em que os franceses ultrapassavam o meio-campo, apareciam italianos de todos os lados para roubar a bola. Ao mesmo tempo em que anulava totalmente Zidane, a Itália dava espaço aos extremos franceses, que partiam pra cima de Grosso e Zambrotta com toda a liberdade. Analisando a decisão de Lippi mais profundamente, pode-se dizer que foi muito inteligente. Aproveitando-se do fato de que os franceses jogam sem um homem de área (como Toni, por exemplo), Lippi preferiu priorizar a marcação em Zidane, sabendo que ao dar espaços aos extremos, poderia confiar em sua dupla de centrais que está a atravessar um momento excepcional. Cannavaro e Materazzi foram dominantes no jogo aéreo, além de fazerem importantes intervenções rasteiras, quando necessário. O central da Juventus é, de fato, o grande jogador deste Mundial.

Trabalho ofensivo da Itália, em 6 linhas

Após sofrer um gol aos 7 minutos, a Itália colocou os nervos no lugar e organizou seu jogo ofensivo. Utilizando-se dos avanços de Grosso pela esquerda, se aproveitando da marcação fraca de Ribéry e Camoranesi pela direita, os italianos começaram a assustar Barthez. Aos 19', canto cobrado por Pirlo, cabeçada certeira de Materazzi, e empate italiano. Logo depois, em outro canto, Toni acertou o travessão. Depois disso, a França tomou as rédeas da partida e a Itália pouco produziu ofensivamente.

Os erros de Lippi

Ao ver seu time retraído, Lippi tentou mudar a situação fazendo duas subsituições. Aos 5' do segundo tempo, tirou Totti, numa noite pouco inspirada, colocando Iaquinta. Também tirou Perrota, que vinha tendo uma fraquíssima atuação e em seu lugar mandou a campo De Rossi. Com essas alterações Lippi tinha em mente tomar de volta o controle do meio-campo, passando a jogar com Gattuso postado em frente aos centrais, Iaquinta ocupando o posto de Camoranesi na direita, Pirlo posicionado no meio, ao lado de De Rossi e Camoranesi no flanco esquerdo. Toni continuava isolado no ataque, sem produzir muito. Porém, essas mudanças não tiveram o efeito desejado por Lippi e a Itália continuava a perder a batalha do meio-campo, concedendo espaços à França. Aos 41' da segunda parte, entrou Del Piero ao lugar de Camoranesi e nova alteração tática, desta vez para o 4-3-3. Iaquinta passou a jogar mais adiantado, ainda pelo lado direito, Del Piero a jogar nessa mesma área, só que pela esquerda, Toni continuava como homem de área, e formou-se uma linha de três médios defensivos à frente da área italiana. Gattuso mais pela direita, Pirlo no meio e De Rossi na esquerda. Quando não tinham a bola, Del Piero e Iaquinta voltavam até o meio-campo, mudando o esquema para um 4-5-1 bastante defensivo. Del Piero não repetiu a atuação contra a Alemanha e pouco fez no prolongamento, assim como grande parte de seus companheiros. Porém, Zidane tratou de facilitar a vida de Lippi...


A evolução tática italiana

PS: Zidane, tu podias ter terminado tua carreira da maneira mais gloriosa possível. Se continuasse em campo, creio que tua França sairia campeã e poderias se retirar do futebol levantando a taça de Campeão Mundial. Mas trataste de estragar isso e preferiste responder provocações, prejudicando teu país. Não que esse ato estúpido de hoje vá apagar tua carreira brilhante, mas manchou uma história que tinha tudo pra ser perfeita.

3 Comments:

Blogger dezazucr falou...

Cannavaro é dos melhores centrais do mundo. Curiosamente não guardo boas recordações dele, desde um jogo Benfica-Inter em que ele, com os seus 1,65 limpava tudo.
É curiosa no mínimo a sua estatura.

Em relação ao jogo, não sei se repararam, mas foi o oposto da final do Euro 2000. Na altura a Itália pareceu mais forte e dominou o jogo todo, criando sempre mais perigo que a França. No final ganhou a França.
Nesta final a França foi sempre mais perigosa (excelente jogo de Malouda, com a curiosidade de o verdadeiro penalti - na 2ª parte,não ter sido assinalado) e ganhou a Itália.

Matterazi esteve em grande... até na provocação, dado que nunca tinha visto Zidane reagir assim.

6:03 da manhã  
Blogger anti-franceses falou...

Ainda bem que o Zidane acabou a sua carreira daquela forma! Foi linda aquela imagem televisiva de o ver recolher às cabines tirando a ligadura e passando ao lado da taça.
Sempre que pensar no Zidane há-de ser essa a minha imagem preferida da sua carreira...

7:35 da manhã  
Blogger João Vitor falou...

olá káká você é o melhor

11:14 da tarde  

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