Nas condições atuais, o Brasil é favorito a conquista da Copa do Mundo 2006, isso é fato. Mas isso me assusta. Através da história o favoritismo nunca nos fez bem, nunca soubemos como lidar com ele. Na Copa de 50, no Brasil, éramos favoritos não só por jogar em casa, mas também por ter um grande time. E deu no que deu, Ghiggia calando o Maracanã lotado. Choro de 200 mil torcedores presentes e mais alguns milhões pelo Brasil que esperavam ansiosos a vitória de seu selecionado, pelo rádio. Em 58, não éramos favoritos, mas ganhamos. Já no Mundial de 62, tinhamos um certo favoritismo por sermos os atuais campeões do mundo, mesmo com um time velho (o terceiro jogador mais novo do Brasil naquela Copa, Vavá estava com 27 anos na época do Mundial). Já em 70, haviam outras grandes seleções, como a Inglaterra e Itália, mas ninguém foi capaz de parar Gérson, Rivellino, Jairzinho, Pelé e cia. Em 1982, o Brasil era tão favorito quanto é agora. Com uma equipe de craques, como Zico, Sócrates, Falcão e Júnior o Brasil não soube aplicar seu 'futebol-arte' e acabou perdendo, causando uma grande decepção na população brasileira, que já dava como certa a conquista do tetra. No Mundial dos Estados Unidos, ninguém acreditava no Brasil antes da competição começar. Porém, com o decorrer dos jogos notou-se que aquela equipe, apesar de jogar de maneira diferente do que era esperado de uma seleção brasileira, foi adquirindo confiança. Muito bem postada defensivamente, e contando com uma dupla de atacantes infernais, Romário e Bebeto, ganhamos aquela Copa. Quatro anos depois, tentávamos o penta. Mas aconteceu o inverso do que ocorreu em 94. Ao invés de comprovar sua força durante a Copa e ir evoluindo, o Brasil não jogou um grande futebol, exceto na semifinal contra os holandeses. Na final, até hoje não sei o que aconteceu, e penso que nunca saberei. Muitos pensam que o Brasil 'se vendeu'. Já eu, penso que falta humildade a nós, para admitirmos que perdemos 'na bola' e ponto. Em 2002, tinhamos todos os motivos para não acreditar em Felipão e seus comandados. Uma das piores campanhas do Brasil na história das Eliminatórias, precisando se classificar no último jogo contra a Venezuela. Ao chegar na Coréia/Japão, a mágica brasileira entrou em campo. Com grandes atuações, fomos deixando os favoritos pra trás, até batermos a Alemanha, na final. Aquela dupla Rivaldo/Ronaldo nunca deixará nossas mentes e corações, podemos dizer que eles ganharam aquela Copa, do mesmo jeito que Romário/Bebeto ganharam a de 94.
Não há dúvidas quanto a qualidade do plantel canarinho que vai a Copa da Alemanha. Temos em mãos uma das melhores gerações de jogadores dos últimos 30 anos. Ronaldinho, Ronaldo, Robinho, Juninho, Kaká, Adriano, Cafú, Roberto Carlos, etc. Especialmente depois do grande desempenho na última Copa das Confederações, o favoritismo veio todo para o lado brasileiro. Apesar de ser um grupo experiente e acostumado a lidar com pressões, penso que isso pode afetar e muito o desempenho brasileiro no Mundial. Todos esperam que o 'Escrete Canarinho' repita em todos os jogos atuações do nível daquela em que vencemos a Argentina por 4x1, mesmo sabendo que isso é impossível. Não se pode exigir de uma equipe que jogue brilhantemente todas as partidas. Muitas vezes, penso que é melhor ganhar, do que 'dar espetáculo'. Se possível, faremos os dois, porém se tivermos que escolher apenas um, escolho ganhar. E esse favoritismo exacerbado do lado brasileiro, fortalece os nosso adversários. A Argentina, depois da derrota humilhante na final da Copa das Confederações, está 'esquecida'. E penso que estão a gostar disso. O treinador José Pekerman tem a sua disposição jogadores do calibre de Riquelme, Crespo e Saviola e ainda pode contar com grandes revelações, como Carlitos Tévez, Messi, Palacio e Aguero. Apesar de viver momento turbulento, os ingleses tem um grande time. E os alemães, apesar de não estarem jogando o melhor de seu futebol, sempre se fortalecem em Mundiais, ainda mais jogando em casa. A 'Squadra Azzurra' está eufórica, depois do último amistoso. Esperando a volta de Totti a tempo, os italianos pensam que tem total capacidade de vencer o Mundial. Não só eles, como eu também. Além dessas citadas, há seleções com ótimos jogadores e que podem surpreender. Portugal, além de C. Ronaldo, Pauleta e Figo, tem Luiz Felipe Scolari. Ele já mostrou seu poder de motivação na última Copa e os portugueses esperam que ele se torne o primeiro técnico a ser campeão mundial com duas seleções diferentes. Apesar de estar passando um momento de renovação, a Holanda também incomoda. Ainda podemos citar França, Espanha e Costa do Marfim como seleções de que podemos esperar algo mais nessa Copa.
Lembro mais uma vez. O favoritismo nunca nos fez bem, e muitos de nossos principais jogadores não vivem bons momentos em seus clubes. Dida, Cafú, R. Carlos, Adriano e Ronaldo não estão a passar o melhor de suas carreiras, e seu desempenho é muito importante para a confirmação do favoritismo brasileiro na Alemanha.