26 setembro 2006

Vamo!

Ruud grita 'Vamo!' em um dos gols marcados essa época

Q
ue grande partida fez o Madrid! Reyes esteve em grande na primeira parte e Diarra foi o dono do meio-campo blanco. A configuração tática adotada por Capello desde a pré-temporada mostra-se acertada, mas só após a entrada de Reyes, a equipe atinge a forma que dela se espera. A chegada do espanhol deu mais velocidade às jogadas laterais e melhorou também o desempenho de todo o meio-campo.

Falando especialmente do meio-campo, vemos uma formação diferente da utilizada em temporadas passadas. Émerson é o primeiro homem no auxílio a dupla Cannavaro-Sérgio Ramos, Diarra joga um pouco mais à frente, com liberdade para avançar, auxiliando Reyes e Raul. Guti é o peão, que gere o jogo de passes idealizado por Capello e talvez o homem mais importante quando se trata de manutenção da posse de bola, item importantíssimo para o sucesso deste esquema. Reyes e Raúl se alternam nos flancos, mas o camisa 19 sempre encontra-se mais avançado, com o fim de explorar sua velocidade nos contra-ataques. Quando na defesa, Raúl tem a missão de auxiliar Guti na marcação na faixa média do campo.

Jogando com mais liberdade do que nos tempos de Lyon, Diarra vem sendo o grande nome do Madrid e hoje, especialmente, esteve em excelente forma. Combina muito bem com Raúl e Guti na criação de jogadas ofensivas, vem tendo grande desempenho na transição e continua com o grande poder de desarme que o consagrou jogando pelo Lyon. Um aspecto que necessita ser melhorado é a distância entre ele e a dupla de centrais. Ainda não possui com Émerson o entrosamento que possuía com Essien, mas com o tempo, se entenderão.

Nesta noite, talvez pelas deficiências técnicas do adversário, Capello tentou sufocar os ucranianos em seu campo, adiantando a marcação. A pressão era constantemente feita em zonas mais altas do campo, em alguns momentos com até cinco jogadores pressionando os defensores do pobre Dinamo e, caso os visitantes conseguissem sair desta pressão, criavam boas jogadas ofensivas, aproveitando-se da pouca marcação no meio-campo.

Talvez se o adversário não fosse o Dinamo, o Madrid poderia ter se complicado, uma vez que, uma equipa com um melhor jogo de passes, como o Lyon mostrou na primeira partida, teria causado sérios problemas à defensiva dos locais. Se Shatskikh, Milevskiy e Diogo Rincón finalizassem como aquela dupla Rebrov-Shevchenko que surpreendeu a Europa vestindo a camisa do mesmo Dinamo, teriam saído do Bernabéu com uma vitória, uma vez que foram inúmeros os contra-ataques proporcionados pelas falhas de marcação do Madrid. É uma falha grave e tem de ser corrigida, não se pode escondê-la atrás dos cinco gols marcados e esquecê-la.

Reyes foi o grande nome do primeiro tempo, com muita velocidade e mostrando que os anos sob o comando de Wenger o fizeram evoluir muito, especialmente em mentalidade. Esteve sempre muito atento quanto ao posicionamento na transição e pressionando os jogadores do Dinamo durante todo o tempo. Raúl também esteve muito bem na partida, demonstrando grandes combinações com Diarra e Guti e bastante disposto, como não se via há anos. Parece-me que, jogando como médio ofensivo novamente, pode voltar ao nível exibicional dos tempos em que municiava Mijatovic e Suker, sob o comando de Capello.

Quanto aos visitantes, destaco a boa atuação do jovem goleiro Rybka. Não se devem tirar conclusões de um jogador acerca de uma partida, mas pareceu-me infinitamente melhor do que o titular, o fraco Shovkovsky.

07 setembro 2006

Best por um dia


Tudo corria dentro do esperado em Belfast. Eram passados 14 minutos da primeira parte e os espanhóis já ganhavam por 1x0, gol de Xavi. Em uma jogada confusa, o médio Xabi Alonso falhou e deixou a bola livre nos pés de David Healy, que não perdoou e marcou o empate norte-irlandês. Daí pra frente, vimos Healy em dia de Best. O avançado do Leeds United esteve em grande forma, marcando um hat-trick e liderando a inesperada vitória dos anfitriões. O gol que deu os três pontos aos locais foi uma pintura de Healy, que rematou dando um chapéu em Casillas.

Os espanhóis pareciam bastante nervosos com a derrota e tentaram de maneira desorganizada o terceiro gol, sem sucesso, numa noite em que nada deu certo para a Fúria. Com o apito final do Sr. De Bleeckere, os 14.500 norte-irlandeses presentes no estádio Windsor Park pareciam não acreditar na vitória de sua selecção, que vinha de uma derrota por 3x0 para a Islândia, no mesmo Windsor Park no sábado.

Vale destacar o grande espírito lutador dos locais, que se defenderam como nunca após marcar o seu terceiro gol. O Homem do Jogo foi, obviamente, David 'Best por um dia' Healy, que esteve a relembrar as grandes atuações do mítico avançado e frasista norte-irlandês George Best, melhor jogador que aquela nação já produziu.

20 agosto 2006

A impressionar


Em um verão que teve como destaque nos noticiários internacionais os desmanches dos envolvidos no Calciocaos, suas transferências não foram das mais notadas. Mas, após a 2ª rodada da Bundesliga, Diego e Hugo Almeida estão a causar sensação. A dupla vem iniciando a temporada de maneira brilhante, sendo os principais destaques individuais neste começo de campeonato.

O brasileiro, ex-FC Porto, foi o destaque do Bremen na conquista da Copa da Liga, sendo o principal jogador de uma equipa que conta com nomes do porte de Torsten Frings, Miroslav Klose e Ivan Klasnic. Após a saída do francês Johan Micoud, vendido ao Bordeaux, os responsáveis pelo emblema alemão buscaram no FC Porto o seu substituto, sendo necessário pagar algo em torno de 6 milhões de euros para levar Diego. Na chegada ao Weserstadion, o brasileiro de apenas 20 anos recebeu a camisa 10, usada por Micoud na última temporada. Diego teve um excelente desempenho na Copa da Liga e parece estar a manter o nível na Bundesliga, já que em dois jogos, contribuiu com um golo e três assistências para as duas vitórias do Bremen. Diego, grande destaque do Santos campeão brasileiro em 2002, vem desempenhando o papel de principal homem criativo da equipa armada por Thomas Schaaf. A sua frente, jogam dois dos atacantes mais possantes da Europa: Klose e Klasnic.

Depois de uma temporada bastante discreta ao serviço do FC Porto, Hugo Almeida parece que encontrou seu melhor futebol em Bremen. Na realidade, o avançado nunca teve muitas chances na equipa principal, especialmente no onze de Adriaanse, mas sempre atraiu interesse de grandes clubes europeus. Em 12 de julho, o clube alemão oficializou a contratação por empréstimo do avançado, com opção de compra que pode ser efetuada até 15 de janeiro. Almeida, que teve grande desempenho na fase qualificatória para o Europeu Sub-21, marcando 8 gols em 9 jogos, recebeu diversos elogios do novo comandante, Schaaf, que referiu-se ao português como um 'avançado em potência, muito forte de cabeça e de uma qualidade extraordinária para a idade.' Logo em sua estréia pelo Bremen, em um amigável frente ao TSV Ottersberg, Almeida marcou dois golos. Na partida de ontem, Almeida entrou ao segundo tempo, no lugar de Klasnic e não decepcionou, marcando seu segundo gol na Bundesliga. É certo que, se continuar a este nível, os comandantes do Bremen não pensarão duas vezes antes de efetuar a sua opção de compra. Com alguma sorte, em três ou quatro anos o camisa 23 do Bremen pode se desenvolver no avançado de classe mundial de que o seleccionado português tanto sente falta.

Além da 'dupla sensação' deste começo de temporada, o Bremen tem um plantel muito equilibrado, dirigentes com bastante sensibilidade no mercado de transferências e um bom treinador. Contam com um excelente onze inicial e várias alternativas no banco de suplentes, como Hugo Almeida. Penso que o Bremen é a única equipa da Alemanha capaz de bater o Bayern München atualmente. É o que veremos durante esta temporada da Bundesliga, que tem tudo para ser uma das melhores, com grandes equipas, ótimos jogadores e adeptos ainda contagiados pelo clima mundialista.

01 agosto 2006

Anos Dourados x Anos Organizados


Muitos vêem o futebol, da maneira que ele é jogado atualmente, como um jogo que pouco se assemelha ao belo jogo praticado há algumas décadas. Os saudosistas me dizem que 'naquela época', o jogo era bonito, vistoso, ofensivo, jorravam gols e grandes jogadores. E que hoje em dia, o futebol é feio, truncado, defensivista, excessivamente tático e que 'não se fazem mais craques como antigamente'.

Nos 'Anos Dourados' do esporte bretão, época compreendida entre as décadas de 30 e 70, dizem-me que os jogos eram verdadeiros espetáculos, que os gols eram obras de arte e os jogadores eram simplesmente fantásticos. Falam-me de Pelé, Garrincha, Friedenreich, Vavá, Didi, Eusébio, Fontaine, Puskas, Boyé, Di Stéfano, e outros tantos, como verdadeiros artistas da bola, homens de outro mundo, que faziam com o esférico coisas que iam contra a realidade. Ainda me falam que as partidas eram cheias de gols, grandes dribles, times ofensivos e assistências inimagináveis.

Não há dúvidas quanto à predominância do jogo ofensivo nessa época, já que grande parte das equipes nas décadas de 40 e 50, alinhavam em um 2-3-5. Sim, os times jogavam com cinco avançados. Algunas linhas ofensivas dessa época são lembradas até hoje, como a do Real Madrid pentacampeão europeu (Canário, Del Sol, Di Stéfano, Puskas e Gento) ou a do River Plate dos anos 40, conhecido como 'La Máquina' (Munõz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau- Foto). Em décadas seguintes, vimos o 4-2-4 e depois o 4-3-3 como táticas mais comuns. Nota-se, em todas elas, uma grande preocupação com o número de avançados, e obviamente, pouquíssima preocupação com o que iria acontecer na parte defensiva. Ainda observando essas formações, vimos que o número de médios era pequeno, já que o deslocamento dos jogadores era bem menor durante a partida e não possuíam múltiplas funções, como possuem hoje. Uma frase que resume bem o pensamento, quanto à movimentação dos jogadores nos 'Anos Dourados' é de Didi, o homem da 'folha seca'. Certa vez ele disse 'Quem tem que correr é a bola, não o jogador'. Nos dias de hoje, se falares isso à qualquer pessoa que entenda um pouquinho do desporto-rei, lhe dirá que é um absurdo. Mas, naquela época, era uma verdade absoluta.

Quanto ao aspecto técnico dos jogadores, penso que haviam muitos grandes jogadores, talvez a maioria deles atuou nesse período, mas havia um distanciamento técnico muito grande entre os grandes e os outros. Toda equipe tinha dois ou três jogadores que eram capazes de desequilibrar uma partida, enquanto os outros oito ou nove estavam anos-luz atrás, em termos de técnica. No que diz respeito a parte futebolística 'fora do relvado', como organização administrativa e preocupação com os adeptos, os clubes eram muitos mais administrados por apaixonados, e não profissionais capacitados. É uma época praticamente amadora, nesse aspecto. É certo que, nestes tempos de glória ofensiva, o futebol era muito mais romântico e folclórico. Grandes mitos futebolísticos, sejam eles jogadores, diretores ou adeptos, viveram nesse tempo que hoje nos parece tão distante.

No começo dos anos 80, foi possível começar a observar mudanças na mentalidade futebolística, especialmente no que diz respeito às tácticas. A parte defensiva começou a ser mais trabalhada e o 4-4-2 começou a reinar. Foi constatado que uma maior movimentação dos jogadores seria necessária para o sucesso, como provara alguns anos antes a Holanda e seu 'futebol total'. Ainda que não vejamos jogos repletos de gols e grandes jogadas, o espetáculo táctico de um jogo de futebol dos dias de hoje é tão bonito, ao meu ver, quanto as partidas memoráveis de outras eras. No Brasil, especificamente, criou-se o conceito de 'lateral' que se tem hoje em dia, originalmente um defensor, mas que também tem obrigações ofensivas de apoio pelos lados do campo. Também nos anos 80 foi praticamente extinta do futebol uma posição até então considerada essencial, a de 'ponta' ou 'extremo'. Aquele jogador rápido, habilidoso, com grande capacidade ofensiva, que marcava gols e que somente tinha que se preocupar em atacar. No lugar do extremo exclusivamente ofensivo, apareceu um extremo que também tinha que voltar até o seu campo, acompanhando o defesa lateral adversário e ajudando a 'fechar o meio-campo'.

Já no começo dos anos 90, o futebol atingiu seu auge defensivista. Prova disso é que o Mundial da Itália é o que possui menor média de gols entre todos os Mundiais. Mas essa década é, com toda a certeza, a que marca o surgimento do futebol como negócio, que passou a envolver cifras antes impensáveis. Os clubes passaram a ser geridos como empresas, o adepto passou a ser digno de respeito e preocupação por parte dos clubes e o futebol tornou-se um dos negócios mais lucrativos do mundo. Com as verbas cada vez maiores, as ligas européias se fortaleceram cada vez mais, concentrando os melhores jogadores do futebol mundial. Do ponto de vista técnico dos jogadores, penso que há uma maior igualdade. Ainda existem grandes jogadores, mas é cada vez mais importante um trabalho coletivo, um esforço de todos para obter o sucesso.

Ainda que me fascine imaginar como era o futebol sessenta ou cinqüenta anos atrás, me sinto extremamente privilegiado em poder viver o futebol atual. É fantástico estudar o trabalho dos estrategistas do futebol, detalhes tácticos minuciosos que decidem campeonatos, observar como se porta tacticamente uma equipa em diversas situações. Talvez tenhamos perdido um pouco da técnica e do brilho individual com o passar do tempo, mas ganhamos muito em termos coletivos. Penso que os craques do passado eram mais craques que os de hoje, e que os mau jogadores do passado eram piores do que os maus jogadores atuais. Há uma maior uniformidade técnica e uma preparação físico-psicológica infinitamente melhor, em relação aos 'Anos Dourados' do futebol. Entre as décadas de 40 e 70, os jogos eram decididos em um drible acertado, que gerava um chute certeiro e a vitória naquele dia. Hoje em dia, são decididos num drible falhado, que gera um contra-ataque e uma consequente derrota.

24 julho 2006

O Plano do Presidente


Posso dizer que foi, no mínimo, surpreendente. Porém, ao olharmos para a situação já feita, não é de se estranhar tanto assim. Ninguém sequer mencionava o nome do 'capitão do tetra', Dunga entre os prováveis sucessores do Sr. Parreira. Mas assim foi.

É da sabedoria de todos a forte influência que o digníssimo Sr. Ricardo Teixeira, presidente da CBF, exerce no seleccionado canarinho. Depois do fracasso no Mundial 2006, com denúncias e críticas a sair de toda a parte, os homens do poder decidiram que era hora de mudar. Ou, ao menos, decidiram que era hora de parecer que estavam a mudar. Trocaram algumas palavrinhas com o Sr. Parreira, já que não eram necessários longas conversas para convencê-lo de que seu tempo à frente da selecção já havia passado, da mesma maneira que Henry passou pelos defensores brasileiros ao anotar o gol da desclassificação verde e amarela. Ao mister, só restou abaixar a cabeça, como fez Roberto Carlos.

Página virada, era a hora de escolher um novo 'comandante' para o avariado barco brasileiro. O Sr. Presidente reuniu-se com seus acessores e formulou um plano. Teria de ser alguém novo, inesperado, que tivesse credibilidade com a torcida, mas que aceitasse sugestões de superiores no seu trabalho. Após muito pensar, o Sr. Teixeira chegou ao nome ideal. Dunga! Preenche com louvor todos os requisitos. Não tem absolutamente nenhuma experiência como treinador, não estava entre os prováveis candidatos de acordo com a imprensa, tinha uma imagem respeitável com a torcida, imagem de um lutador, guerreiro em campo e líder. Como todo novato que recebe uma oportunidade destas, Dunga não iria querer desapontar o chefe que lhe proporcionou essa chance. Pronto, aí está o último requisito.

Depois de chegar ao nome, o Sr. Teixeira conversou com o novo técnico alguns pequenos detalhezinhos, coisa pouca, duas horas de conversa resolveram tudo, apenas pra se certificar que tudo correria à sua maneira. Uma boa idéia seria que o novato, ao ser apresentado, chegasse com um discurso de renovação. 'Pera lá, não pode ser uma renovação rápida e inquisitória, como quer o povo', deve ter exclamado o presidente. Tem que ser algo gradual, para que não hajam pressões por parte da opinião pública, algo que deve ser feito 'com critérios'. Para atrair a confiança de todos, o 'capitão do tetra' também deve incluir em seu discurso, palavras de motivação, vibração e que ele traria para o comando da selecção toda a vontade que tinha nos relvados. Plano executado com perfeição: alegria e alívio do presidente, curiosidade e entusiasmo da população e desconfiança da imprensa (a parte que ainda tem opinião própria, quero dizer, que não mantém com o Sr. Teixeira nenhuma relação profissional).

A
gora, só nos resta esperar. Ainda que pense que Dunga não nos levará à lugar algum, ele tem minha torcida.

19 julho 2006

Feliz Temporada Nova!


Aqui estou eu, preparando-me para mais uma época que está por vir. Prometo à vocês, fiéis leitores, uma maior e mais consistente participação ao longo da temporada, sempre tentando dar o meu melhor. Uma boa época, para todos, é o que desejo.

Saudações

09 julho 2006

Tu mereces, Cannavaro


Não foi um grande jogo do ponto de vista técnico, e isso é fato. Porém, ao olharmos o aspecto tático da partida, vemos muita inteligência estratégica em ambas as equipes. Tanto Domenech quanto Lippi alinharam suas equipes em um 4-5-1, com algumas diferenças notáveis.

França
Pirlo, o alvo

Ao traçar sua estratégia de marcação, Domenech baseou toda sua armação defensiva em cima da marcação de um jogador italiano: Andrea Pirlo. Durante todo o Mundial, o camisa 21 esteve a provar que era um fator preponderante para o sucesso da Squadra Azzurra e o técnico francês viu que, para dificultar a vida de Pirlo, seu time teria de pressioná-lo. Ao vir buscar a bola dos defesas, Pirlo se encontrava em uma situação difícil, pois sempre tinha Zidane ou Henry lhe pressionando e diminuindo seus espaços. Com isso, tinha de soltar a bola rapidamente para as laterais, outro ponto forte italiano. Porém, Domenech também tratou de exercer uma marcação dura sobre Grosso e Zambrotta, e assim a saída de bola italiana ficou muito prejudicada. Ao anular o jogo ofensivo italiano, a França também abdicou um pouco de seu jogo ofensivo. Malouda e Ribéry não tinham tanta liberdade, pois tinham que cumprir seu papel na marcação aos defesas laterais e Zidane tinha que voltar até o círculo central, para recompor o meio-campo francês. Porém, à metade do primeiro tempo, os franceses relaxaram mais na marcação e liberaram mais Malouda e Ribéry.

Malouda, a válvula de escape

Com forte marcação italiana em cima de Zidane, o time francês foi obrigado a jogar mais pelo flancos, com os velozes Malouda e Ribéry. Esses dois, que foram as principais figuras do primeiro tempo, levaram algum perigo à baliza defendida por Buffon e imprimiram muita movimentação no ataque francês. Foi em uma dessas subidas de Malouda pela esquerda aos 6 minutos, numa falha de posicionamento de Cannavaro (talvez a única deste Mundial), que o camisa 7 francês foi derrubado na área por Materazzi e sofreu pênalti. Zidane converteu e colocou os franceses em vantagem. Após sofrer o gol de empate, os franceses foram mais ao ataque, sempre jogando pelos lados do campo, se aproveitando da falha da marcação italiana, que se concentrava na área central do campo.

Henry, a figura do segundo tempo

Ao ver os italianos abdicando do jogo ofensivo no início da segunda etapa, Domenech mandou sua equipa à frente. E assim fizeram, com grande participação de Henry. O jogador do Arsenal se movimentou bastante, criando opções de ataque e combinando bem com Zidane, Malouda e Ribéry. Talvez com um pouco mais de organização a França tivesse chegado ao gol de desempate, mas com grande atuação de Materazzi e Cannavaro, sempre paravam na defensiva italiana. A chance mais clara foi a cabeçada de Zidane, bem defendida por Buffon. Hoje Henry não esteve tão isolado quanto em outros jogos e seu desempenho foi bem melhor, ainda que tenha pecado em algumas finalizações.

O erro de Domenech

Ao fim do segundo tempo a França tinha o total domínio da partida. Com uma boa movimentação de ataque e variação de jogadas, o gol seria uma questão de tempo. Porém, um erro de Domenech colocou tudo em risco. Após 100 minutos de muita correria, Scarface Ribéry estava exausto e teve que ser substituído. Ao invés de colocar Govou ou Wiltord e manter sua estratégia de rapidez no ataque, sem um homem fixo na área, Domenech colocou Trezeguet. Malouda veio ocupar o lugar de Ribéry na extrema direita, Henry tomou o lugar de Malouda na esquerda e Trezeguet entrou como ponta de lança. O camisa 20 não fez absolutamente nada nos 20 minutos que esteve em campo e por azar, ainda perdeu um pênalti. Logo depois, aos 2 minutos do segundo tempo do prolongamento, o técnico francês foi obrigado a tirar Henry, que não aguentava mais andar. Colocou Wiltord, que ocupou seu lugar no flanco esquerdo. O certo teria sido trocar Ribéry por Wiltord aos 100' e Trezeguet por Henry aos 107'. A diferença consiste justamente no intervalo de tempo. Esses 7 minutos foram decisivos e, se jogados com a mesma estratégia ofensiva do segundo tempo, o gol francês certamente teria saído.



Itália

In Cannavaro we trust


Assim como Domenech, Lippi baseou sua estratégia defensiva em um jogador: Zidane. Ao contrário da França, a marcação italiana era quase inexistente no seu campo de ataque, mas a partir do momento em que os franceses ultrapassavam o meio-campo, apareciam italianos de todos os lados para roubar a bola. Ao mesmo tempo em que anulava totalmente Zidane, a Itália dava espaço aos extremos franceses, que partiam pra cima de Grosso e Zambrotta com toda a liberdade. Analisando a decisão de Lippi mais profundamente, pode-se dizer que foi muito inteligente. Aproveitando-se do fato de que os franceses jogam sem um homem de área (como Toni, por exemplo), Lippi preferiu priorizar a marcação em Zidane, sabendo que ao dar espaços aos extremos, poderia confiar em sua dupla de centrais que está a atravessar um momento excepcional. Cannavaro e Materazzi foram dominantes no jogo aéreo, além de fazerem importantes intervenções rasteiras, quando necessário. O central da Juventus é, de fato, o grande jogador deste Mundial.

Trabalho ofensivo da Itália, em 6 linhas

Após sofrer um gol aos 7 minutos, a Itália colocou os nervos no lugar e organizou seu jogo ofensivo. Utilizando-se dos avanços de Grosso pela esquerda, se aproveitando da marcação fraca de Ribéry e Camoranesi pela direita, os italianos começaram a assustar Barthez. Aos 19', canto cobrado por Pirlo, cabeçada certeira de Materazzi, e empate italiano. Logo depois, em outro canto, Toni acertou o travessão. Depois disso, a França tomou as rédeas da partida e a Itália pouco produziu ofensivamente.

Os erros de Lippi

Ao ver seu time retraído, Lippi tentou mudar a situação fazendo duas subsituições. Aos 5' do segundo tempo, tirou Totti, numa noite pouco inspirada, colocando Iaquinta. Também tirou Perrota, que vinha tendo uma fraquíssima atuação e em seu lugar mandou a campo De Rossi. Com essas alterações Lippi tinha em mente tomar de volta o controle do meio-campo, passando a jogar com Gattuso postado em frente aos centrais, Iaquinta ocupando o posto de Camoranesi na direita, Pirlo posicionado no meio, ao lado de De Rossi e Camoranesi no flanco esquerdo. Toni continuava isolado no ataque, sem produzir muito. Porém, essas mudanças não tiveram o efeito desejado por Lippi e a Itália continuava a perder a batalha do meio-campo, concedendo espaços à França. Aos 41' da segunda parte, entrou Del Piero ao lugar de Camoranesi e nova alteração tática, desta vez para o 4-3-3. Iaquinta passou a jogar mais adiantado, ainda pelo lado direito, Del Piero a jogar nessa mesma área, só que pela esquerda, Toni continuava como homem de área, e formou-se uma linha de três médios defensivos à frente da área italiana. Gattuso mais pela direita, Pirlo no meio e De Rossi na esquerda. Quando não tinham a bola, Del Piero e Iaquinta voltavam até o meio-campo, mudando o esquema para um 4-5-1 bastante defensivo. Del Piero não repetiu a atuação contra a Alemanha e pouco fez no prolongamento, assim como grande parte de seus companheiros. Porém, Zidane tratou de facilitar a vida de Lippi...


A evolução tática italiana

PS: Zidane, tu podias ter terminado tua carreira da maneira mais gloriosa possível. Se continuasse em campo, creio que tua França sairia campeã e poderias se retirar do futebol levantando a taça de Campeão Mundial. Mas trataste de estragar isso e preferiste responder provocações, prejudicando teu país. Não que esse ato estúpido de hoje vá apagar tua carreira brilhante, mas manchou uma história que tinha tudo pra ser perfeita.